São Paulo, 30/09/2014        
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O que será dos animais domésticos em um mundo vegano? Parte 1

O veganismo é o estilo de vida resultante da oposição prática a toda forma de exploração animal, não apenas na alimentação, como também no vestuário, no entretenimento, no teste de produtos, no trabalho, etc. Por conseguinte, o veganismo opõe-se à própria criação animal.

Entendemos por criação animal a reprodução de linhagens de animais que atendem a um ou mais interesses do ser humano. Geralmente as espécies domesticadas derivam de formas selvagens selecionadas por expressarem determinadas características vistas como de interesse e cuja procriação seletiva ao longo dos anos ou manipulação genética selecionaram essas características de forma a potenciá-las.

Dessa forma, a maior parte dos animais “de criação” são organismos selecionados pelo homem para serem explorados, e diferem significativamente de suas formas selvagens. Ainda, a maior parte desses animais, com a seleção de características favoráveis à sua exploração, acabaram por perder características selvagens que tornavam-nos aptos a sobreviver em seu ambiente natural. De maneira resumida, a maior parte dos animais domésticos desenvolveu uma dependência do ser humano, especialmente no que diz respeito à sua sobrevivência.

Nos casos em que essas características não comprometem a sobrevivência do animal no ambiente natural, a introdução (ou reintrodução) desses pode vir a comprometer as formas selvagens da espécie, à medida que domesticados e selvagens passam a competir entre si, ou pior, passam a cruzar entre si, comprometendo o perfil genético da forma selvagem.

Portanto, a opção de “libertação animal” para espécies domésticas que envolve sua soltura em um ambiente selvagem na maioria das vezes não fará sentido, pelas próprias características dos animais envolvidos ou do ecossistema. A introdução de animais em ambientes naturais só deve ser feita quando seu perfil genético condiz com o das populações do campo e quando um trabalho de reabilitação é feito, de forma a possibilitar sua sobrevivência sem a interferência do ser humano. Não é o caso quando tratamos de linhagens de animais domésticos, selecionados para produzir.

Para exemplificar, vamos supor o caso do gado bovino. O gado hoje existente difere significativamente das formas selvagens originalmente capturadas por nossos antepassados em 7.000 A.E.C., na Ásia. Bois e vacas foram, ao longo dos tempos, selecionados para fornecer mais carne e menos carcaça, mais leite, couro de qualidade, animais mais mansos que facilitassem o manejo e robustos o suficiente para serem utilizados como animais de tração ou para outros trabalhos. Toda essa seleção resultou que, atualmente, existem mais de 1.000 raças de bovinos, todas adaptadas a uma determinada região e com características produtivas que atendem a um determinado interesse.

Toda essa seleção, porém, tornou esses animais menos aptos à sobrevivência sem os cuidados do ser humano. Bovinos tornaram-se animais pouco ágeis, pesados, muito distintos dos ruminantes não domesticados. Para um predador de topo, uma vaca é um alvo praticamente imóvel. Libertar bovinos nos campos, em locais onde existam predadores, é condená-los à morte certa, pois por 9.000 anos esses animais contaram com a proteção do ser humano e não se pode esperar que sobrevivam repentinamente sem essa proteção.

De maneira oposta, poder-se-ia pensar na libertação de bovinos em locais onde não existam predadores. Essa situação já existe, de certa forma, quando pensamos na pecuária extensiva, em regiões onde o criador pouco precisa fazer para proteger seu rebanho. No entanto, nesse caso, o próprio ser humano trabalha como um predador, recolhendo o gado de tempos e tempos e mandando-o para o matadouro, regulando assim o tamanho de sua população.

Em uma situação hipotética onde todos os seres humanos tornam-se veganos, apenas abandonando o gado nos campos, os bovinos e outros animais domésticos que vivessem em áreas onde não existem predadores iriam se reproduzir indefinidamente, degradando ainda mais os ambientes naturais e interferindo com outras formas de vida.

Não há como defender que essas populações acabariam por atingir um equilíbrio com seu ambiente porque qualquer acomodação a um ecossistema implicaria no deslocamento de outras espécies, na alteração de seu funcionamento. Bois podem estar vivendo na região do Pantanal e da Amazônia, mas apenas porque esses ambientes foram modificados para suportá-los. Pelo ponto de vista do Pantanal ou da Amazônia, muito melhor seria não haver ali animais domésticos. Dessa forma os ambientes tenderiam naturalmente a voltar ao que eram antes.

Creio que o gado bovino exemplifique bem o que acontece com outros animais chamados “de fazenda” — Cavalos, ovelhas, cabras, galinhas, porcos, etc. Esses animais dependeram do ser humano por milhares de anos para sobreviver e se reproduzir, e sua manutenção dependerá, para sempre, da interferência do ser humano. Sua introdução em ambientes selvagens compromete sua própria sobrevivência ou a sobrevivência de outras espécies existentes nesses ecossistemas.

Além disso, podemos nos questionar sobre o porquê de, em um “mundo vegano”, mantermos espécies desenvolvidas pelo ser humano com a única finalidade de exploração. Pode-se entender que haja uma preocupação em evitar a extinção de espécies selvagens, afinal, cada espécie está inserida em um contexto ambiental e desempenha determinada função dentro de um ecossistema. Romper um elo nessa corrente pode significar a extinção de outras espécies e o comprometimento do próprio ecossistema.

Mas, no caso de espécies domésticas, vemos que a extinção não significa uma perda, pois essas espécies não representam nenhum elo positivo para a funcionalidade dos ecossistemas, pelo contrário, são invasoras. Além disso, não há lógica em se pensar na “perda de biodiversidade” quando a existência de apenas 3 espécies de ruminantes domésticas (o boi, a ovelha e a cabra), por exemplo, compromete a sobrevivência de mais de 160 espécies de ruminantes selvagens, além de infinitas outras formas de vida.

Cada boi, cada ovelha, cada cabra, cada animal doméstico deve gozar de direitos enquanto indivíduos, mas realmente não devemos nos preocupar com a “preservação da espécie” desse indivíduo. Levar ou permitir a extinção de determinada espécie/raça animal não significa ir contra os interesses desses animais enquanto indivíduos.

Os interesses de indivíduos animais, enquanto organismo senciente, limitam-se basicamente a levar vidas condizentes com sua natureza, buscando o conforto e fugindo ao desconforto. Acima de tudo, animais tem interesse na continuidade de sua própria vida. Bois ou galinhas não estão preocupados se dali a 100 ou 200 anos sua raça continuará existindo, e tanto faz para eles se atualmente existem 1 bilhão ou apenas 10 indivíduos de sua espécie. Isso simplesmente não faz parte de seus interesses particulares, mas sim do interesse de seres humanos preocupados com sua exploração.

Sérgio Greif é biólogo, mestre e ativista pelos direitos animais. Formado pela UNICAMP em 1998, é co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”. Entre outros assuntos, Sérgio se interessa por bioética, gestão de sistemas de saúde e métodos substitutivos ao uso de animais na ciência e ensino.É colunista da ANDA.
É colunista do Florais e Cia.

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