São Paulo, 13/12/2019        
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Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
Quem consegue frear o ímpeto das máquinas, do machado, do fogo e dos desfolhantes, que avançam impiedosamente e consomem centenas de hectares de matas nativas brasileiras? Na Amazônia, árvores centenárias são derrubadas, dando lugar aos campos de culturas anuais e pastagem. A destruição em massa já ocorreu com a Mata Atlântica, cuja ação predatória acabou reduzindo-a em pequenos lotes que representam, hoje, 7% de sua extensão original. O desmatamento ilegal e progressivo da floresta amazônica é uma prática que garante empregos durante o ano todo, gera lucro fabuloso à s madeireiras clandestinas, aos fazendeiros e grileiros. Em contrapartida, causa um prejuízo incalculável ao solo desprotegido, à biodiversidade. Interfere no ciclo das águas e despeja toneladas de carbono na atmosfera.
A degradação ambiental é um problema universal, porque prejudica não somente a natureza, mas a sociedade como um todo. Não se trata de defender a intocabilidade da floresta amazônica pelo mito de ser o "pulmão verde do mundo" e patrimônio da humanidade. Sabe-se que o clima mundial, quase que na sua totalidade, é governado pelos oceanos. Há que se respeitar, sim, a vocação da região. Grande parte dela não possui aptidão agrícola. Nesta porção chove muito e os solos são predominantemente pobres para comportar a agricultura e a pecuária. No entanto, áreas enormes estão sendo derrubadas impunemente para a formação de campos agrícolas, que não sustentam a fertilidade em um médio ou longo prazo, dando margem à agricultura itinerante, uma obviedade que justifica o fracasso de três décadas de tentativas. É preciso, acima de tudo, fazer a distinção entre desmatamento legal (20% pelo direito de propriedade) e ilegal.
Apesar de possuir a maior diversidade biológica do mundo, de inegável potencial para a produção tecnológica, a exploração da Amazônia deve passar pelo crivo das buscas de soluções econômicas e ecologicamente viáveis. É preciso estabelecer um plano que acate as verdadeiras aptidões dos diferentes sítios geográficos da região, através do estabelecimento de um zoneamento climático e pedológico, para a implantação de um modelo rigoroso de desenvolvimento, baseado na sustentabilidade ambiental e uso responsável dos recursos naturais. São 20 milhões de amazônidas que escolheram esse ambiente para viver e merecem consideração.
Neste plano, sugerido, parte dessa área deverá ser usada para a extração racional de madeira, gerando mais empregos e arrecadação de impostos. O avanço da soja, arroz e pastagem em direção ao coração da Amazônia, deve ser urgentemente contido, carreando os projetos agropecuários para áreas com baixo potencial para a produção florestal, onde o índice pluviométrico não é muito alto, como as do cerrado, desde que os solos sejam bem manejados e jamais utilizados para assentamentos.
Por fim, há que se incrementar os incentivos para a introdução de indústrias de bioprospecção e ao ecoturismo, que, aliadas a um eficiente sistema de fiscalização, vão proteger os ecossistemas aquáticos, combater a biopirataria e as queimadas. Porém, para que tudo funcione, é preciso que o governo atual, que herdou o velho problema, se comprometa com aquilo que se propôs, e revigore os órgãos governamentais - como o Ibama - fragilizados por anos de sucateamento orçamentário. Que se dê mais estímulo ao Ministério do Meio Ambiente, com maior injeção de recursos. Somente assim, a natureza, que sempre oferece serviços gratuitos, livrar-se-á das armas de destruição em massa e a soberania brasileira, em relação à Amazônia, não será tão ameaçada pelos países invejosos.

João O. Salvador
- biólogo do CENA (Centro de Energia Nuclear na Agricultura / USP).
salvador@cena.usp.br
A Publicação é autorizada, CONSERVANDO TODOS OS CRÉDITOS E
CITANDO A FONTE: site “Florais e Cia” – www.floraisecia.com.br

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